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26 de jan de 2015

Para que orar?

Por Thiago Azevedo

Muito se tem ouvido esta pergunta quando o assunto em questão são as doutrinas reformadas que envolvem os atributos incomunicáveis divinos. Já ouvi até alguém dizer o seguinte: “se Deus sabe tudo, então para que orar?” Perceba que no bojo desta pergunta há uma noção errônea da onisciência. Esta pergunta reflete a carência teológica do indivíduo que a fez. A pergunta se inicia com um conectivo condicional, se. Evidentemente que Deus sabe de tudo e por isso mesmo é que devemos orar, pois mesmo Ele sabendo, e mesmo nós sabendo que Ele sabe de tudo, nos rendemos a seus pés e nos sujeitamos em sua presença. Isso funciona como um reconhecimento em gratidão que mesmo sabendo que Ele sabe de tudo, seus adoradores ainda se debruçam em sua presença e colocam seus planos diante dEle. Ora-se também pelo fato de aprofundar o relacionamento com Deus e por meio disso passarmos a conhecer sua vontade que é boa perfeita e agradável. Ora-se pelo fato de a oração ser uma oportunidade de estar a sós com Deus.

Mas, os motivos por que se deve orar não cessam nestes mencionados acima, ora-se pelo fato de Deus, mesmo sendo soberano e sabendo de tudo, recomenda que seus servos orem sem cessar (1 Ts 5:17). Jesus alega que Deus concede justiça aos escolhidos que clamam por tal (Lucas 18:7). Todavia, o principal motivo cujo se deve orar é porque o principal nome da fé cristã orou mais que qualquer outra pessoa, a saber, o próprio Jesus. Paul Washer em uma de suas pregações acerca do tema alega que deveria ser algo assombroso ver Jesus orar. Em Lc 11 os discípulos pedem a Jesus que ele os ensinassem a orar. É importante enfatizar que Jesus nessa altura de seu ministério já tinha realizado milagres diversos – transformou água em vinho, andou sobre as águas, ressuscitou mortos, curou leprosos, expulsou demônios etc., etc., etc. No entanto, seus discípulos não pedem que Cristo vos ensine nada além da oração. Isso seria uma resposta aos dias atuais que tantos almejam aprender práticas de persuasão visionárias, lucros ou outros costumes pagãos diversos, quando na realidade a única coisa que os discípulos de Cristo pediram foi que ele lhes ensinasse a orar. Nada chamou mais atenção dos discípulos de Cristo do que sua oração. Isso de fato mostra que deveria ser assombroso ver e ouvir Jesus orar.

Jesus não precisar orar, não precisar pedir perdão, não precisar solicitar meios de graça etc. Jesus era o próprio Deus encarnado, mas mesmo assim, Jesus tem uma vida de oração constante. Ora, se Jesus que não precisava orar por ter caráter puro e santo, e mesmo assim orava continuamente, avalie nós pecadores miseráveis e mortais. Aqui Jesus nos ensina e muito. O motivo dos discípulos terem pedido que Jesus ensinasse-os como se deve orar, deve ter sido justamente este: Jesus não precisava orar, mesmo assim orava mais que qualquer um, e isso era de fato admirável. Na atualidade, o assombro acerca do texto mencionado, deveria ser o mesmo.

Jesus antes de começar a mostrar aos discípulos como se deveria orar em Mateus 6, nos tece algumas recomendações acerca da prática da oração: primeiro não devemos ser como os hipócritas que realizam suas orações em público para serem vistos (Mateus 6:5). Alguns irmãos na atualidade fazem questão de demonstrar que oram e que têm uma vida assídua dentro desta prática. Uns mostram seus joelhos marcados por gastar tempo de joelhos, testas marcadas e ainda fazem questão de dizer que permanecem horas com o “rosto no pó”- expressão que denota que a pessoa se curva de forma humilhante encostando seu rosto no chão para falar com Deus. Segundo o texto estas pessoas já têm seus próprios galardões. A prática da oração não deve estar embutida neste contexto. Outro detalhe importante na vida de Cristo é que mesmo sendo visto orando recomenda que essa prática deve ser algo íntimo e privado (Mateus 6:6). Jesus alerta que a verdadeira oração não significa necessariamente falar muito (Mateus 7), pois há pessoas que falam muito e não dizem nada, enquanto há aqueles que dizem tudo falando pouco. Os gentios pensavam que por muito falar seriam ouvidos. Por fim Jesus alerta que Deus já sabe o que iremos pedi-lo mesmo antes de proferirmos alguma palavra (Mateus 6: 8).

É aqui que reside a dúvida de muitos, ora se Deus já sabe então por que orar? Por que o mesmo Deus que sabe institui a oração e recomenda que devemos orar sem cessar (1 Tessalonicenses 5:17). Precisamos entender que mesmo Deus sabendo de tudo Ele nos dá a graciosa oportunidade de sermos íntimos dEle. Mesmo sabendo que Deus sabe de tudo, temos a graciosa oportunidade de lhe contar nossas fraquezas e compartilhar com Ele nossos sonhos e metas. Nos é concedida a oportunidade do entendimento de que nossos sonhos e nossas metas não são exclusivamente nossos e que estão debaixo do querer e da vontade divina. Temos oportunidade de contá-lo, mesmo sabendo que o que prevalecerá será sua vontade e respeitar isso é uma rica oportunidade que muitos desprezam. Sendo assim estaremos mais aptos a aceitar a vontade divina, esta que nos é boa perfeita e agradável (Romanos 12:2). O cristão atual necessita urgentemente de uma transformação de mente relacionado à oração.

“A oração está para vida cristã como o ar está para vida biológica”[1]. Mesmo sendo tão importante, esta prática é a mais negligenciada entre os cristãos. Quando digo negligenciada não me refiro apenas a quem não ora, mas também a quem ora, pois muitos oram de fato, porém da forma errada. Veremos agora que há possibilidades de se realizar uma oração de forma errada e com motivações erradas.

“E tudo quanto pedirdes em meu nome eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho.
Se pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei”.
(João 14:13-14)

Aqui percebemos que um dos principais preceitos da oração é que o nome de Deus seja glorificado no bojo do pedido. Logo, deveser por conta isso que muitas orações não são respondidas.

“Ora, nós sabemos que Deus não ouve a pecadores; mas, se alguém é temente a Deus, e faz a sua vontade, a esse ouve”.  (João 9:31)

Aqui podemos perceber que Deus não escuta todas as orações que lhe são feitas, sobretudo daqueles que não fazem sua vontade e não o temem.

“Se vós estiverdes em mim, e as minhas palavras estiverem em vós, pedireis tudo o que quiserdes, e vos será feito. Nisto é glorificado meu Pai, que deis muito fruto; e assim sereis meus discípulos”. (João 15:7-8)

O texto começa com o conectivo condicional, ou seja, se alguém estiver em Jesus e suas palavras neste alguém. Ou seja, se e somente se. Aqui nos parece que deve haver uma congruência entre palavra de Cristo e indivíduo, i.é., se um estiver no outro a oração será exitosa. Mas, mais uma vez a glória do Pai está em jogo quando ela deve ser o topo da pirâmide. Nesta harmonia a glória do Pai não pode ser negligenciada, onde há uma coisa deve haver necessariamente a outra.

“E qualquer coisa que lhe pedirmos, dele a receberemos, porque guardamos os seus mandamentos, e fazemos o que é agradável à sua vista”. (1 João 3:22)

Quem guarda os mandamentos de Deus e faz o que é agradável à sua vista não tem como pedir algo que denigra a imagem de Deus ou que desfavoreça a glória divina. Os pedidos serão harmoniosos com a vontade de Deus, serão para a glória de Deus.

“E esta é a confiança que temos nele, que, se pedirmos alguma coisa, segundo a sua vontade, ele nos ouve”. (1 João 5:14)

“Pedis, e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites”.( Tiago 4:3)

Muitos estão pedindo mal a Deus, mas mesmo assim acreditam que estão pedindo bem. Aqui é percebido que a nossa vontade na oração não importa muito, e sim a vontade de Deus. Isso não nos impede de contarmos a Deus nossas metas, objetivos, desejos, sonhos, intenções etc., muito pelo contrário. Mas devemos saber que sua vontade é que vai prevalecer.

Possa ser que alguém ore muito, tenha marcas nos joelhos, na testa e propague para todos que é um orador nato e que passa muitas horas orando. Mas, será que atende estas recomendações? Jesus na oração do pai nosso profere dez sentenças onde as cinco primeiras são direcionadas a Deus. Deus está nos céus, por isso é santo, o seu reino vem até nós, sua vontade prevaleça tanto na terra como no céu. Após isso é que Jesus começa a contemplar o ambiente terreno na sua oração. O pão de cada dia (porção diária igual no maná do deserto e não excessos), perdão das ofensas como nós perdoamos a quem nos ofende (alude ao mistério do perdão divino que mesmo sem merecermos nos perdoa). Não permita cair em tentação (o cristão deve entender que se não comete nenhum ato ilícito não é por meritocracia e sim por intervenção do Espírito Santo divino), mas livra-nos do mal (é Deus quem nos livra do mal). É perceptível que todas as sentenças estão atreladas a pessoa de Deus, as cinco primeiras em caráter direto e as cinco últimas em caráter indireto. Quem dá o pão é Deus, o perdão provém dEle e desta relação devemos perdoar também, mesmo se alguém não merece. Ele é quem não permite a queda na tentação e quem nos livra do mal. Portanto é notório que a oração é criteriosa, não pode ser entendida como algo banal.

Muitos proferem palavras diversas – verborragia – demonstram que oram muito, falam alto, gesticulam, passam horas em suas meditações. Mas, será que estão orando verdadeiramente? A cultura hedonista que paira no evangelho atual em solo brasileiro nos reflete algo, a saber, muitos querem ser reconhecidos como verdadeiros adoradores – estão envolvidos com ministérios de louvor, gospel, shows etc. Mas precisamos identificar quem são os verdadeiros oradores – aqueles que praticam de forma correta a genuína e pura oração. Estes sãos alguns dos motivos pelos quais devemos orar, mas orar da forma correta!

[1] Frase de R.C Sproul no livro “A oração muda as coisas?”

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