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24 de ago de 2016

O que eu perco quando perco o culto?

Por Tim Challies

Você pode imaginar a sua vida sem culto? Você consegue imaginar a sua vida sem se reunir regularmente com o povo de Deus, para adorá-lo em conjunto? O culto corporativo é um dos grandes privilégios da vida cristã. E talvez ele seja um daqueles privilégios que, ao longo do tempo, tomemos como certo. Quando eu paro para pensar a respeito, não consigo imaginar a minha vida sem culto. Eu nem mesmo desejo pensar nisso. Mas eu acho que vale a pena considerar: O que eu perco quando eu perco o culto?

Vivemos numa cultura consumista onde temos a tendência de avaliar a vida através de meios muito egoístas. Fazemos isso com o culto. “Hoje o sermão não falou comigo. Eu simplesmente não consegui apreciar as canções que cantamos nesta manhã. A leitura da Escritura foi demasiado longa”. Quando falamos dessa maneira podemos estar dando provas de que estamos indo à igreja como consumidores, como pessoas que desejam ser servidas em vez de servir.

No entanto, o ponto primário e o propósito de cultuar a Deus é a sua glória, não a satisfação das nossas necessidades sentidas. Nós adoramos a Deus, a fim de glorificar a Deus. Deus é glorificado no nosso culto. Ele é honrado. Ele é magnificado à vista daqueles que se juntam a nós.

Dessa forma, o culto rompe completamente com a corrente do consumismo e exige que eu cultue por amor da sua glória. Tenho ouvido dizer que o culto “é a arte de perder o ego na adoração de outro”. E é exatamente este o caso. Eu esqueço de tudo sobre mim e dou toda honra e glória a Ele.

O que eu perco sem o culto? Eu perco a oportunidade de crescer através de ouvir um sermão e de experimentar alegria por meio do cântico de grandes hinos. Eu perco a oportunidade de me unir a outros cristãos em oração e para recitar grandes credos com eles. Mas, mais que isso, eu perco a oportunidade de glorificar a Deus. Se eu parar de cultuar, estarei negligenciando um meio através do qual eu posso glorificá-lo.

Você vê? O culto não é sobre você ou sobre mim. O culto é sobre Deus. E, realmente, isso muda tudo.

Quando vejo o culto como algo que, em última análise, existe para o meu bem e para a minha satisfação, fica fácil tirar um dia de folga e pensar que a minha presença não faz nenhuma diferença. Mas quando eu venho para glorificar a Deus, eu entendo que ninguém mais pode tomar o meu lugar. Deus espera o levantar das minhas mãos, o erguer do meu coração e o levantar da minha voz a Ele.

Quando vejo o culto como algo que é todo sobre mim, fica fácil pular de igreja em igreja e estar sempre à procura de algo que se ajuste melhor a mim. Mas quando eu vejo a igreja como algo que é verdadeiramente sobre Deus, me pego procurando por uma igreja mais pura e melhor em adorar do modo exato como a Bíblia ordena – Eu procuro por uma igreja através da qual eu possa glorificá-lo cada vez mais.

Sem dúvida, o culto é um privilégio. Mas também é uma exigência, uma responsabilidade. E a maior responsabilidade, bem como o maior privilégio no culto, é trazer glória a Deus.

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Fonte: What Would I Lose if I Lost Worship?

Tradução: Alan Rennê Alexandrino

22 de ago de 2016

Ana Paula Valadão e a Egolatria de uma Igreja Enferma

Por Thiago Oliveira

“Queixo pra cima, Princesa! Rainha! Senão a coroa cai”. Essa é uma frase “mantrica” que se repete numa música* cantada por Ana Paula Valadão num evento da Igreja Batista da Lagoinha. Além da sofrível melodia, que parece canção de programa infantil, a letra é terrível. Num templo que foi pintado de preto e que teve o púlpito retirado, a celebração é do homem para o homem. A líder do grupo Diante do Trono, no meio da música manda um “celebre a sua identidade, mulher”. Como se essa bizarrice não bastasse, ainda há uma coreografia no qual uma senhora é coroada e dança com aquela típica coroa de debutante. Além de deturpar o evangelho, precisa ser tão brega assim?

A grotesca egolatria evangélica, recheada de eventos em que Deus é apenas subserviente, sendo invocado para atender os caprichos de “crentelhos mimados”, chega ao seu ápice quando ao invés de utilizar o momento do louvor para bendizer o nome do SENHOR, e enaltecer seus atributos, um grupo passa a exaltar qualidades humanas. Numa parte da canção, no qual insta as mulheres a se lembrarem do que são, há uma lista de qualidades, dentre elas: bonita, inteligente, sábia, paciente, humilde, submissa, mansa, obediente, respeitadora, encorajadora e etc...etc...etc. Também se exalta o fato da mulher orar e jejuar, redundando em mais um adjetivo elogioso, que seria “fervorosa”.

Não tive como não recordar a parábola que Jesus conta sobre a oração do fariseu e do publicano. O primeiro exalta a si mesmo por conta do cumprimento de atividades religiosas. O segundo apenas bate no peito clamando por misericórdia, reconhecendo sua pecaminosidade. Cristo nos diz que foi o publicano quem saiu justificado diante de Deus (Leia a parábola em Lucas 18. 9-14). No evangelho não existe espaço para autoglorificação. Nós devemos nos lembrar de que somos pó, que nossa vida é como um sopro e ai de nós se não fossem as misericórdias do SENHOR sobre quem somos. Sendo assim, que negócio é esse de “celebre quem você é”?

O que a Ana Paula Valadão promove vai de encontro com o padrão de humildade prescrito na Bíblia. Ora, para quê essa necessidade de autoafirmação? Pelo que dá a entender, a intenção é levantar a moral de mulheres que estão deprimidas, desiludidas da vida. Precisamos ter amor por tais e procurar ajuda-las a atravessar momentos de dificuldade - talvez um surto depressivo? Sim, devemos. Mas faremos isso apoiados na Palavra, buscando exaltar o nome do Senhor ao invés do nosso. Transformar uma pessoa depressiva numa narcisista não é a solução adequada, muito pelo contrário, só aumenta o prejuízo. Uma pessoa que precisa lutar contra a depressão deve se amar, mas o amor em primazia deve ser dado a Deus. Este é o primeiro grande mandamento. Ademais, amar-se não significa viver caçando elogios ou vangloriando-se pelas suas qualidades. Assim como a humildade - segundo a Bíblia - não significa negá-las. Então, o que vem a ser uma pessoa humilde? Tim Keller responde com a seguinte afirmação:

“A pessoa verdadeiramente humilde não é aquela que se odeia ou se ama, e sim a que tem a humildade do Evangelho. É uma pessoa que se esquece de si mesma e cujo ego é igual aos dedos dos pés. Eles simplesmente exercem sua função. Não imploram por atenção”.

Ao contrário do que muitos pensam, não tenho prazer em escrever esse tipo de texto. Mas mesmo não gostando, me sinto no dever de expor o falso evangelho, até porque ele resulta numa adoração a um deus falso. Sabe qual o nome disso? Idolatria! E a igreja evangélica, de modo geral, tem se especializado em idolatrar o ser humano. Isso é resultado de uma má compreensão da Escritura, que por sua vez, resulta em púlpitos adulterados, em que apesar de ter um pastor e uma Bíblia aberta, prega mensagens moralistas e de autoajuda, massageando o ego de uma geração acomodada e materialista. Quando a pregação expositiva e fiel da Escritura e a sã doutrina são deixadas de lado, a igreja – mesmo aparentando crescimento devido ao seu aumento numérico – está desfalecendo. Está gravemente enferma.

Mulheres e homens não devem colocar queixo pra cima. O mais propício é que ele fique baixo, encostado ao peito. E com a fronte e os joelhos prostrados, nossa oração deve ser a seguinte: “Senhor, diante de ti eu sei que nada sou, mas por Tua graça, livra-me de todo mal. Inclusive, livra-me de mim mesmo e dos maus desejos que afloram de minha natureza pecaminosa. Santifica-me na verdade. A Tua palavra é a verdade, e nela quero me aprofundar. Reina em mim, senhor Jesus. Amém”.

Não queiramos ser tidos por príncipes ou reis. Almejemos o status de servos bons e fiéis, pois, são estes que estarão na presença do verdadeiro Rei, desfrutando das benesses do seu reino. Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Como era no princípio, agora e sempre.
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*Veja, se estiver estômago forte: clique aqui

12 de ago de 2016

O Contencioso


Por Morgana Mendonça

Porque o evangelho não é uma doutrina de língua, mas, de vida”. O grande reformador João Calvino (1509-1564), consegue em poucas palavras, nos ensinar algo de extrema importância. Ele nos ensina sobre uma vida piedosa que retrata o evangelho da graça de Deus. A vida do cristão precisa, não apenas por palavras, e sim, por conduta, expressar a sã doutrina.

Tem sido um grande desafio viver uma vida que glorifique a Cristo. A comunidade evangélica tem enfrentado situações desafiadoras em todas as áreas, seja com questões culturais, ideológicas e até mesmo com relacionamentos interpessoais. Cada dia mais os relacionamentos virtuais têm sido alvo de grandes controvérsias. Perceber o quanto estamos longe de uma saudável convivência com o corpo de Cristo nas redes sociais é importante para destacar um ponto chamado contenda. Outra questão é perceber que as "contendas" criam dimensões gigantescas e trazem, não somente divisão, como adeptos a cada dia. No meio reformado, essa tem sido uma triste realidade que destoa com aquilo proposto na Escritura. Amantes das controvérsias, em torno de temas teológicos, produziram muitos teólogos "fakes" e "super-crentões". A Escritura nos diz claramente:

O que ama a contenda ama a transgressão; o que faz alta a sua porta busca a ruína.

Provérbios 17.19

Contenda é pecado! Amar a contenda é pecado, pecado esse que mina o coração e reflete um comportamento desprezível. Esse verso nos diz que: quem ama a contenda, ama o pecado. A contenda é um pecado que se encarrega de trazer outros pecados, como a maledicência, a ira, a maldade e o orgulho. O próprio verso mencionando em provérbios fala do orgulho, "aquele que faz alta a sua porta facilita sua própria queda". Em nossos dias, esse amor à contenda é visto de várias formas nas redes sociais, em páginas ou em grupos. Uma vitrine de contendas, relacionamentos destruídos e muitos bloqueados. Cristãos contenciosos, não seria uma questão trágica em nosso meio? A ânsia da defesa pública e da exposição teológica reformada, para que "likes" alimentem um ego enfermo. Um desejo ardente para oferecer a última palavra baseado em todo arcabouço da filosofia ou teologia, não é menos importante do que manter um relacionamento saudável com um irmão, que, por um detalhe, pensa diferente de você. 

A falsa piedade tem convencido a muitos com uma retórica de amor e zelo pela verdade, e ódio contra o pecado. Como disse, certa vez, um pastor reformado sobre suas percepções a respeito desses debates teológicos de Facebook: "A contenda se reveste de falsa piedade, quando o que realmente está acontecendo é amor ao pecado que Deus odeia". A glória de Deus, o bem ao próximo, o verdadeiro zelo pela Escritura estão longe dos debates teológicos das redes sociais, são poucos os que proporcionam realmente santo temor e paz entre os envolvidos. 

De fato, é necessário um exame das nossas motivações teológicas, um sondar das nossas intenções. Devemos questionar o propósito de tantas leituras, labor teológico e filosófico, de tanto conhecimento bíblico com um objetivo de apenas satisfazer o ego, e que, por fim, carece bastante de motivações genuinamente piedosas. Muitos outros pastores têm se posicionado contra essa realidade, trazendo a reflexão necessária sobre este desserviço à fé reformada. 

Aqueles que confessam a fé cristã reformada devem, em todos os âmbitos, manifestar o senso profundo e inequívoco do Soli Deo Gloria. Não devemos ter prazer nas contendas, nem muito menos em disputas teológicas. E isso não quer dizer que devemos abandonar o labor teológico, nem um debate saudável. Que o fim de se envolver nesse embate seja a glória de Deus, negando qualquer outra motivação que traga algum prejuízo na comunhão com os irmãos. O próprio reformador João Calvino não amava a disputa, nem a controvérsia, nem o falar contencioso. O alvo de Calvino era defender a fé com zelo, por amor às ovelhas de Cristo, para a glória de Deus. 

A verdadeira sabedoria é humilde e o pai da contenda é o orgulho. Que a nossa oração seja: concede-nos, ó Pai, uma inteligência em sincera humildade e pronta humilhação. A mistura de conhecimento e insensatez é chamada pelos gregos de sofomania, ou seja, o hábito de querer parecer sábio. Lembremos-nos do livro de provérbios, que diz, "o temor a Deus é o princípio da sabedoria" (Pv 1.7). Deixo aqui, nas palavras do apóstolo, um grande conselho:

E rejeita as questões tolas e desassisadas, sabendo que geram contendas; e ao servo do Senhor não convém contender, mas sim ser brando para com todos, apto para ensinar, paciente; corrigindo com mansidão os que resistem, na esperança de que Deus lhes conceda o arrependimento para conhecerem plenamente a verdade, e que se desprendam dos laços do Diabo (por quem haviam sido presos), para cumprirem a vontade de Deus.

2 Timóteo 2.23-26

10 de ago de 2016

A Importância do Credo Niceno

Por Thiago Oliveira

Cremos em um só Deus, Pai Onipotente, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis; e em um só Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, gerado pelo Pai, unigênito, isto é, da substância do Pai, Deus de Deus, Luz de Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado não feito, de uma só substância com o Pai, pelo qual foram feitas todas as coisas, as que estão no céu e as que estão na terra; o qual, por nós homens e por nossa salvação, desceu, se encarnou e se fez homem, e sofreu e ressuscitou ao terceiro dia, subiu ao céu, e novamente deve vir para julgar os vivos e os mortos; e no Espírito Santo. E a quantos dizem: “Ele era quando não era”, e “Antes de nascer, Ele não era”, ou que “foi feito do não existente”, bem como a quantos alegam ser o Filho de Deus “de outra substância ou essência”, ou “feito”, ou “mutável”, ou “alterável” a todos estes a igreja católica e apostólica anematiza. [1]

Quando finda a perseguição ao cristianismo e este passa a ter a simpatia do Império, surge uma controvérsia que abala a ortodoxia: o Arianismo. Esta doutrina herética, formulada por Ário, presbítero em Alexandria, negava que Cristo fosse eterno e dizia ainda que Deus e Jesus não tinham a mesma substância, ou seja, para Ário, Cristo não era divino. Em uma de suas cartas ao Bispo Eusébio da Nicomédia, Ário defende sua doutrina:

“Nós pensamos e afirmamos que o Filho não é ingênito, nem participa absolutamente do ingênito, nem derivou d’alguma substância, mas que por sua própria vontade e decisão existiu antes dos tempos e eras, inteiramente Deus, unigênito e imutável. Mas antes de ter sido gerado ou criado ou nomeado, ele não existia, pois ele não era ingênito”.

Nessa época, o imperador Constantino queria consolidar o seu império tendo o cristianismo, e não o paganismo, por base. Assim sendo, convocou os bispos do Império, aproximadamente 300, e os reuniu num concílio realizado na cidade de Nicéia, na Ásia Menor (325 d.C.). A controvérsia não tardou em ser resolvida, pois, os bispos do Ocidente, aceitavam a sentença de Tertuliano “Uma substância, três naturezas”, emitida um século antes.

O Arianismo foi condenado, e conforme escrito na declaração de fé, considerado anátema (i.e. maldito). É nítido que a consubstancialidade entre Deus e Jesus Cristo são asseguradas no credo niceno. Tanto Ário como Eusébio da Nicomédia, foram expulsos de suas cidades e excomungados por heresia. Mas a doutrina havia sido muito difundida entre os povos germânicos. Nas chamadas “Invasões Bárbaras”, Ostrogodos e Visigodos, por exemplo, já chegaram cristianizados a Roma, todavia, eram adeptos do arianismo.

O texto do Credo foi depois reformulado em dois concílios, Calcedônia (451 d.C.) e Espanha (589 d.C.). Assim ficou o seu texto:

Creio em um Deus, Pai Todo-poderoso, Criador do céu e da terra, e de todas as coisas visíveis e invisíveis; e em um Senhor Jesus Cristo, o unigênito Filho de Deus, gerado pelo Pai antes de todos os séculos, Deus de Deus, Luz da Luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado não feito, de uma só substância com o Pai; pelo qual todas as coisas foram feitas; o qual por nós homens e por nossa salvação, desceu dos céus, foi feito carne pelo Espírito Santo da Virgem Maria, e foi feito homem; e foi crucificado por nós sob o poder de Pôncio Pilatos. Ele padeceu e foi sepultado; e no terceiro dia ressuscitou conforme as Escrituras; e subiu ao céu e assentou-se à direita do Pai, e de novo há de vir com glória para julgar os vivos e os mortos, e seu reino não terá fim. E no Espírito Santo, Senhor e Vivificador, que procede do Pai e do Filho, que com o Pai e o Filho conjuntamente é adorado e glorificado, que falou através dos profetas. Creio na Igreja una, universal e apostólica, reconheço um só batismo para remissão dos pecados; e aguardo a ressurreição dos mortos e da vida do mundo vindouro.

Mesmo após a sua modificação, vemos que a crença na triunidade Divina permanece intacta, ressaltando que Cristo é não-criado, mas é verdadeiro Deus, criador de todas as demais coisas. Atualmente, algumas seitas que se denominam cristãs, negam que Jesus Cristo seja igual a Deus Pai. Tais seitas são chamadas de unitaristas, por negarem o conceito da Trindade. As Testemunhas de Jeová são as mais conhecidas. Outras, como o kardecismo dizem que Cristo é um ser evoluído e o mormonismo afirma que Cristo não é Deus, é uma criatura dele, irmão de Lúcifer e dos homens. Estas são formulações heréticas, e quem as professa não pode ser considerado cristão, pois, a Trindade é dogma central da fé cristã.

A Igreja Evangélica Voz da Verdade, fundada em Santo André - SP, ganhou fama em todo o Brasil, por causa do seu conjunto musical, bastante influente nas rádios evangélicas, isso nos anos de 1990. Logo, suas músicas começaram a ser cantadas em várias igrejas, até que suas ideias unicistas foram descobertas e denunciadas por diversos pastores e teólogos ortodoxos. Tal episódio nos serve de alerta. As heresias não morrem, elas se reinventam. Vestem uma roupa nova para atrair novos adeptos. A importância de conhecermos o Credo de Nicéia, a história da igreja em si, sobretudo a era patrística, é que nos auxiliará em defesa da sã doutrina contra os falsos ensinos.
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[1] Primeira formulação do Credo Niceno, citado em GONZALES, Justo. Uma História Ilustrada do Cristianismo, vol. 2, A era dos gigantes. São Paulo: Vida Nova, 1985, p. 97.

8 de ago de 2016

Religião, Cultura e Redenção

Por Herman Bavinck

Entre todos os povos do mundo, encontramos uma noção de pecado e miséria, e todos sentem a necessidade e a esperança de redenção. O otimismo é impotente para rejeitar o primeiro fato e reconciliar completamente os seres humanos consigo mesmos e com o mundo. O pessimismo, porém, nunca foi bem sucedido em desfazer o segundo fato e em erradicar  a esperança para o futuro do coração do humano. Além disso, vimos anteriormente que a expectativa de uma redenção vindoura está ligada, em muitas religiões, a uma pessoa vindoura e especificamente baseada no aparecimento de um rei. 

Aqui podemos acrescentar que a ideia de redenção está quase sempre associada à de reconciliação. Redenção, devemos dizer, é primariamente um conceito religioso e, portanto, ocorre em todas as religiões. Admito que os seres humanos têm à sua disposição muitos meios para se manterem na luta pela existência e para se protegerem contra a violência. Eles não estão sozinhos, mas vivem em comunidades. Eles têm mentes com as quais pensar, mãos com as quais trabalhar e podem, pelo trabalho e pelo esforço, conquistar, estabelecer e expandir um lugar para si mesmos no mundo. É digno de nota, porém, que todas essas ajudas e suportes não são suficientes para eles. Por mais que as pessoas se desenvolvam culturalmente, elas nunca ficam satisfeitas com isso e não alcançam a redenção pela qual pela qual estão ansiosas, pois ao mesmo tempo em que a cultura satisfaz suas necessidades, incentiva a ter orgulho no grande progresso que fizeram, por outro, elas lhes dá uma noção progressivamente mais clara do longo caminho que ainda precisam percorrer. Na medida em que as pessoas colocam o mundo sob seus pés, elas se sentem mais e mais dependentes daquelas forças celestiais contra as quais, com medida em que resolvem problemas, vêem os mistérios do mundo e da vida se multiplicarem e aumentarem em complexidade. 

Enquanto sonham com o progresso da civilização, ao mesmo tempo vêem abrir diante de si a instabilidade e a futilidade do mundo existente. A cultura tem grandes, até mesmo incalculáveis vantagens, mas também traz consigo seus próprios inconvenientes e perigos peculiares. Quanto mais abundantemente os benefícios da civilização escorrem por nosso caminho, mais vazia a vida se torna. É por isso que em adição à cultura, em toda parte, teve origem e alcançou maturidade sob a influência da religião. Se os males da humanidade foram causados pela cultura, certamente eles poderiam ser curados de nenhuma outra forma a não ser pela cultura. Mas os males que temos em mente são oriundos do coração humano, que sempre  permanece o mesmo, e a cultura somente os realça. Com toda a sua riqueza e poder, ele apenas mostra que o coração humano, no qual Deus colocou a eternidade (Ec 3.11), é tão grande que nem todo mundo pode satisfazê-lo. Os seres humanos estão em busca de uma redenção melhor do que aquela que a cultura pode lhes dar. Eles estão procurando felicidade duradoura, um bem eterno. Eles estão ansiosos por uma redenção que os salve física e também espiritualmente, para  o tempo e também para a eternidade, e isso somente a religião, e nada mais, pode lhes dar. Somente Deus pode lhes dar isso, não a ciência ou a arte, a civilização ou a cultura. Por essa razão, a redenção é um conceito religioso, é encontrada em todas as religiões  e é quase sempre associada à ideia de reconciliação, pois a redenção que os seres humanos procuram e precisam é uma redenção na qual são erguidos acima de todo o mundo e inseridos  em comunhão com Deus. 

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Fonte: Dogmática Reformada. Ed. Cultura Cristã, Volume 3, p.331-32.

5 de ago de 2016

A Trindade em essência (ontológica) e a Trindade no trabalho (econômica)

Por Leandro Lima

Dentro da Trindade existe absoluta igualdade de essência, logo, não existe qualquer grau de subordinação, nem mesmo de honra. O Pai não é maior em essência do que o Filho e nem o Filho maior do que o Espírito Santo. O Pai não deve ser mais adorado do que o Espírito, ou o Espírito mais do que o Filho. Entretanto, há características próprias em cada uma das pessoas da Trindade, as quais não encontramos nas demais. Estamos falando da Paternidade da Filiação e da Processão.

A paternidade é uma característica exclusiva do Pai. Nesse sentido não podemos chamar o Logos de Pai e nem o Espírito de Pai. A paternidade do Pai é diferente da que os homens concebem, por ser eterna. Não houve um tempo em que Deus não fosse Pai. Desde toda a eternidade ele é o Pai do Filho. O Pai se difere do Filho e do Espírito Santo por não ser gerado e nem proceder de ninguém, e por ser o único que gera.

O Filho possui a característica exclusiva de ser gerado. Somente o Filho é filho do Pai. Não houve um tempo em que o Filho não existia (Mq 5.2), ele é eternamente gerado da essência do Pai. A igreja tem historicamente afirmado que a geração do Filho é desde toda a eternidade como um ato atemporal. Se o Pai gerou o Filho em algum momento da história, então, isso significa que ele mudou de essência e que o Filho não é eterno em essência. A geração do Filho não cria uma nova essência na Trindade, pois é a mesma essência que é compartilhada tanto pelo Pai quanto pelo Filho. A Geração é uma comunicação da essência do Pai ao Filho, num ato atemporal, que faz com que tanto o Pai, quanto o Filho tenham vida em si mesmos (Jo 5.26). Em geral, os argumentos mais usados para dizer que Cristo não é eterno são os textos de Colossenses 1.15 e Apocalipse 3.14, que falam respectivamente de Jesus como "primogênito" e o "princípio" da criação de Deus. Dizem os unitários, especialmente as Testemunhas de Jeová, que esses termos colocam Cristo como a primeira criatura de Deus, não sendo portanto, eterna. Em Colossenses 1.15 "primogênito" da criação não pode se referir ao primeiro ser criado, pois subentenderia que Cristo é o primeiro filho da própria Criação e isso não faz sentido. A interpretação mais provável é que Cristo é o herdeiro de toda a Criação de Deus. Do mesmo modo, em Apocalipse 3.14, falar de Cristo como o primeiro por causa da palavra "princípio" não faz justiça ao uso dessa palavra no próprio livro do Apocalipse, pois o próprio Deus é chamado de princípio (Ap 1.8; 21.6; 22.13). Faz muito mais sentido pensar que o texto está falando de Cristo como o mais proeminente de toda a criação, o principal, o mais importante, o chefe (Ver Cl 1.18).

O Pai gera o Filho, o Filho é eternamente "gerado" do Pai, e o Espírito Santo "procede" eternamente do Pai e do Filho. Nas línguas grega e hebraica as palavras "pneuma" e "ruach", que são traduzidas como "espírito", derivam de raízes que significam "soprar, respirar, vento". Daí a ideia do Espírito ser soprado por Deus (Jo 20.22). A doutrina de que o Espírito "procede" do Pai e do Filho levou algum tempo para ser formulada pela igreja, sendo que somente em 589 no Sínodo de Toledo, foi formulada a seguinte declaração de fé: "Cremos no Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho". A base bíblica de que o Espírito procede do Pai e do Filho é João 15.26 e os textos nos quais o Espírito é chamado de Espírito de Cristo ou de Espírito do Filho (Rm 8.9; Gl 4.6; Fp 1.19; 1Pe 1.11).

A Trindade no Trabalho (econômica)

Uma maneira interessante de ver a Trindade é entender a forma como a Trindade age, não em relação a si mesma, mas em relação à criação. Quando falamos em essência, vimos que, embora haja características próprias em cada pessoa da Trindade, não existe qualquer grau de subordinação entre elas. Porém, quando falamos em trabalho (economia) da Trindade, percebemos que há uma ordem como Deus trabalha. Isso nos revela bastante do caráter Trinitário. Jesus fez algumas declarações que, certamente, poderiam nos deixar confusos, se não entendêssemos a diferença de Trindade em essência (ontológica) e Trindade econômica. Já vimos que ele disse ser um com seu Pai, porém, em outros textos, ele afirmou ser submisso ao Pai, como por exemplo, João 6.38: "Porque desci do céu não para fazer a minha própria vontade; e, sim, a vontade daquele que me enviou. E também noutra ocasião ele disse: "O Pai é maior do que eu" (Jo 14.28). Já dissemos que de acordo com a Bíblia, há igualdade absoluta entre as pessoas da Trindade, mas, então, por que Jesus disse que o Pai era maior do que ele? Certamente porque se referia à sua encarnação e à obra que precisava fazer. Ele foi submisso ao Pai nesse sentido e, portanto, inferior em função, mas não em essência. Estamos agora, falando das obras que se realizam, não dentro do ser divino, mas em relação à criação, providência e redenção. Vemos nas Escrituras algumas obras sendo mais atribuídas a uma das pessoas da Trindade do que a outra. Entretanto, devemos tomar o cuidado para não exagerarmos nas distinções, pois de certa forma, a Trindade participa conjuntamente de todas as obras externas.

Não precisamos temer falar de uma subordinação econômica de Filho ao Pai, desde que entendamos que não há nenhuma subordinação de essência. É por isso que Paulo diz: "Quero, entretanto, que saibais ser Cristo o cabeça de todo o homem, e o homem, o cabeça da mulher, e Deus, o cabeça de Cristo" (1Co 11.3). No contexto ele está tratando da diferença que existe entre o homem e a mulher, e da subordinação que a mulher deve ao homem. Ele não está dizendo que a mulher é inferior ao homem, mas que deve ser submissa e guardar as diferenças proporcionais. Da mesma forma, o Pai é o cabeça de Cristo, mas isso não quer dizer que ele é superior, pois a essência é a mesma. A questão está nas funções que são diferentes.

Devemos evitar a formulação simplista de que o Pai é o responsável pela Criação, o Filho pela Redenção, e o Espírito pela Santificação, pois a Trindade participa conjuntamente de tudo isso. A distinção que podemos fazer é a seguinte: Ao Pai pertence mais o ato de planejar, ao Filho o de mediar, e ao Espírito o de agir. Isso pode ser visto no relato da criação. No texto de Gênesis 1.1-3, as três pessoas da Trindade estão agindo. O texto diz: "No princípio criou Deus os céus e a terra" (Gn 1.1). Note que a criação é atribuída a Deus. Entretanto, em seguida veja algumas manifestações diferentes desse Deus: "A terra, porém, era sem forma e vazia, e o Espírito de Deus pairava sobre as águas" (Gn 1.2). Aí está a Terceira Pessoa, o "Espírito de Deus". A maioria dos comentaristas concorda que o Espírito Santo está numa função de "energizar" a matéria, sendo, portanto, o ponto de contato entre Deus e a matéria. Mas, e onde está o Filho? O Filho é a "palavra" de Deus. Foi João quem chamou Jesus de o "verbo" de Deus (Jo 1.1). Ele é a palavra proferida, o "haja luz", é o instrumento através do qual todas as coisas foram criadas. A Bíblia afirma isso categoricamente: "Pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele" (Cl 1.16). Portanto, podemos dizer que na obra da criação, o Pai fala, o Filho é a Palavra falada - Mediador, e o Espírito Santo é o agente direto sobre a matéria. Em termos semelhantes, a Trindade trabalha na Redenção, cada pessoa executando uma tarefa particular. O Texto de 1Pedro 1.2 é claro nesse sentido, pois diz que os crentes são: "Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo". Aqui também o Pai é o idealizador da salvação, pois a ele pertence o ato de escolher os que devem ser salvos. Nesse sentido, o Pai é o autor da eleição. O Filho está novamente na função de Mediador, ele possibilita a obediência a Deus através da aspersão do seu sangue. Já ao Espírito Santo é indicada a tarefa de santificar, ou seja separar para si os eleitos. Então, o Pai elegeu, o Filho salvou e o Espírito aplicou a salvação. Na verdade essa ordem de funções pode ser vista por toda a Escritura: O Pai planejando a salvação (Jo 6.37-38) e escolhendo os eleitos (Ef 1.3-4), o Filho executando o plano de Deus (Jo 17.4; Ef 1.7), e o Espírito Santo confirmando essa obra sobre os crentes (Ef 1.13-14). De fato, como declara Lloyd-Jones, "essa é uma ideia atordoante, ou seja, que estas três bem-aventuradas Pessoas, na bem-aventurada santíssima Trindade, para minha salvação quiseram dividir assim o trabalho".

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3 de ago de 2016

Stranger Things e a Amizade Cristã

Por Pedro Pamplona

Se existe um valor nítido e marcante na série Stranger Things, esse é a amizade. E uma bela amizade, daquelas bonitas de acompanhar. Daquelas que faz você lembrar dos seus amigos e das coisas que já passaram juntos. Daquelas que nos faz lembrar que a amizade é um dos grandes presentes que Deus nos deu, principalmente (não somente) as amizades cristãs. Fora ser amigo de Deus, poderíamos tranquilamente cantar que "não existe nada melhor do que ter amigos de Deus".

Falando nesse tipo de amizade, creio que alguns conceitos errados podem surgir de vez em quando. O primeiro deles é achar que o fato de termos a Jesus substitui nossas amizades terrenas. O segundo é achar que o cristianismo é contra a ideia de termos melhores amigos (isso não seria exclusivismo?). Nenhuma das duas é verdadeira. Eu poderia citar alguns textos bíblicos, mas para isso aqui não virar um textão ainda maior fiquemos apenas com Jesus. Ele tem um relacionamento perfeito entre o Pai e o Espírito na Trindade e mesmo assim teve amigos na terra. Em segundo lugar, Jesus teve amigos mais próximos, como os 12 apóstolos, e dentro desses teve ainda aqueles melhores amigos, João, Pedro e Tiago. Problema resolvido.

Agora vamos pensar em três características fundamentais de uma amizade cristã. Meu objetivo é diferenciar essa amizade das outras e mostrar porque nossos melhores amigos (não os únicos) devem ser companheiros da fé. Stranger Things nos ajudará com as ilustrações.

1. A amizade cristã é construída em torno de Cristo: Isso significa que nossas amizades tem um propósito especial. Assim como o grupo de amigos em Stranger Things se reúne para salvar o quinto amigo desaparecido, nós temos um propósito em comum. Exaltar a Cristo. Esse é um elemento que não está presente em outros tipos de amizade. John Piper falou sobre isso de uma maneira excepcional: "Cristo sempre pretendeu que o seu relacionamento com Ele fosse o pulsar da sua amizade com outros".[1]

2. A amizade cristã tem um código: Nossa amizade é dirigida por um código de honra. Todas as amizades são, ou de forma implícita ou explícita. Alguns amigos deixam claro as regras de convivência, o que acho muito bacana. Nosso grupo de amigos de Stranger Things também faz isso. Durante uma briga esse código é citado. Aquele que começou a briga deveria estender a mão e se desculpar primeiro. E o mais interessante, aquele que desobedecesse o código seria afastado do grupo. Nós temos um código de honra chamado Bíblia. E é esse código que permite a amizade ser construída para exaltar a Cristo. Portanto, se o código leva a amizade até o seu propósito supremo, temos que concluir que ele é mais importante do que os participantes da amizade. A amizade cristã não pode existir fora do código. E esse é o principal erro que cometemos.

3. A amizade cristã custa caro: Não estamos fazendo amigos apenas em busca de prazer e satisfação própria. Aqueles amigos de Stranger Things colocaram a vida em risco pela amizade. Cristo fez ainda mais quando entregou a si mesmo para a morte pela vida dos seus amigos. Jen Thorn escreveu um pequeno texto sobre os custos da verdadeira amizade[2]. Ele enumerou 6: custará sua conveniência pessoal, seu tempo, sua intimidade, seu conforto, suas orações e seu amor. Tudo isso deverá ser derramado em sacrifício na vida dos seus verdadeiros amigos. Parece lindo na teoria, mas poucos estarão dispostos a gastar tudo isso com você. Identifique-os e retribua.

A imagem que ilustra o post, com os três amigos num único abraço, não foi usada por acaso. A amizade trina e eterna entre o Pai, Filho e Espírito Santo é o grande padrão para nossas amizades. Estude sobre isso!

"Para que todos sejam um, Pai, como tu estás em mim e eu em ti. Que eles também estejam em nós..." (Jo 17:21)

Quero encerrar dizendo que Cristo morreu para reunir um povo, sua igreja. E é nesse povo que encontraremos esse tipo de amizade. O melhor lugar para encontrar e cultivar suas melhores amizades é na sua igreja local. Não existe elo de amizade mais forte do que entre dois ou mais eleitos do Senhor, pois são unidos pelo agir soberano, salvífico e cristológico de Deus através do seu Espírito.

Aos meus grandes amigos.

Soli Deo Gloria!

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29 de jul de 2016

Stranger Things e o Ministério de Jovens

Por Pedro Pamplona

Usei meu último dia de folga para assistir com minha esposa a série mais comentada nesses últimos dias, Stranger Things. Gostamos muito de séries e do Netflix. Foram 8 episódios muito interessantes que prederam nossa atenção e imaginação. Como a expectativa criada em torno da produção foi grande, ela não foi superada, mas é uma excelente série. Como é de se esperar (pelo nome) coisas estranhas acontecem nessa ficção científica. Na verdade, coisas bem estranhas e inesperadas por todos. A história [LEVE SPOILER] gira em torno da possibilidade da existência e de interação com um mundo ou dimensão paralela. Assistam!

Um mundo paralelo com coisas estranhas e inesperadas... O que isso me lembraria? Se você pensou em ministério de jovens, acertou! Foi isso que veio a minha cabeça no dia seguinte. Acompanhe meu raciocínio inicial. Ao meu ver o direcionamento de muitos ministérios de jovens é criar um mundo paralelo ao mundo do restante da igreja. É como se os jovens necessitassem viver na mesma vida, mas numa dimensão diferente, só para eles. E nessa visão o que difere as dimensões são exatamente as coisas estranhas que permeiam nossa juventude. Espero me tornar mais claro com os pontos a seguir.

Um deus estranho

O primeiro aspecto de um mundo paralelo no ministério de jovens é um deus estranho. Se Ele é o criador e a fonte de toda realidade, um mundo diferente começa com um Deus diferente. No deserto Deus deu ao seu povo hebreu um ambiente (o tabernáculo), uma forma de louvor (o sistema sacrificial) e uma forma de ensino e comportamento (a lei). O Deus único instituiu uma maneira de ser adorado. Seu povo o adorava como Ele queria. Isso quer dizer que a adoração a outro deus seria diferente (ex: bezerro de ouro) ou que outros povos não saberiam adorar a Deus corretamente, isso porque nem o conheciam.

Realmente me parece que o deus de boa parte dos jovens é estranho às Escrituras e ao restante da igreja. Costumam pensar num deus menos irado e mais complacente com o pecado. Num deus mais camarada com irreverente. Ou talvez um deus que não se importe tanto com as normas que Ele mesmo criou. O jovem costuma ver a Deus como o tiozão descolado, não como pai. Os filósofos atenienses convocaram Paulo a falar por acharem que ele ensinava coisas estranhas (At 17.20), mas o apóstolo começa dizendo que a razão pela qual acham seu ensino estranho está no fato de que adoram a um deus desconhecido (At 17.23), não o Deus único e verdadeiro de Paulo.

Não é novidade vermos jovens achando ensinos bíblico estranhos. Temo que isso se deve ao desconhecimento de Deus por conta do deus estranho que constroem em suas mentes. E isso afeta todo o resto.

Um ambiente estranho

Se temos um Deus estranho, provavelmente teremos um ambiente estranho de vida e adoração. Isso é perceptível em muitos ministérios de jovens. Existe uma grande tentativa de criar um ambiente "diferentão", uma outra dimensão da igreja. Por exemplo, sabemos que o Deus da Bíblia é um Deus de decência e ordem (1 Co 14.40), não sabemos? Por que então tanta desordem e indecência no meio dos jovens? A resposta: a visão de Deus estranha às Escrituras. Pense num culto normal de domingo de uma igreja e pense naquele culto de jovens badalado da sua cidade. Por que eles são tão diferentes. Por que as coisas valorizadas no culto dominical normal não são valorizadas no sábado a noite.

Um ambiente de jovens paralelo não se justifica. Nenhum ministério tem a prerrogativa bíblica de criar um ambiente estranho. O que estou querendo dizer com isso? Não me oponho a contextualização de linguagem e roupagem, mas tudo deve ser feito dentro do limite bíblico. Esse mundo totalmente diferente e paralelo acaba viciando os jovens e o mantendo preso a um formato. Muitos não crescem, não gostam de ir a igreja aos domingos e querem continuar mimados pelo deus estranhos dos jovens. E o grande problema é esse: a criação de uma realidade jovem paralela ao restante da igreja é a busca por tornar o ministério mais parecido com o presente século.

Um louvor estranho

No culto de domingo as luzes estão acessas, no de sábado apagadas. No de domingo a música está num volume agradável onde podemos ouvir os demais irmãos cantando, no sábado o volume é máximo. No domingo a liturgia segue normal, no sábado ela é substituída pelo entretenimento. No domingo temos um pregador bem vestido, normalmente, no sábado temos alguém fantasiado ou com roupas que não usaríamos no domingo. No domingo fazemos uma adoração voltada para os crentes, no sábado um show voltado para os incrédulos. Por que duas realidades diferentes? Só podemos encontrar resposta numa visão de Deus diferente.

Deus deixou claro um padrão de louvor ao seu nome. Seria enorme a defesa bíblica de cada passagem, mas podemos resumir e ficar com o princípio de que Ele está procurando adoradores em "Espírito e em Verdade" (Jo 4.24), ou seja, cristãos verdadeiros adorando através da verdade aplicada pelo Espírito. No mundo paralelo dos ministérios de jovens a verdade nas letras musicais pouco parecem importar diante da forma de apresentação. Aliás, as letras estranhas que cantam por ai é a maior expressão do deus estranho que pregam por ai.

Uma pregação estranha

Falando em pregação... quanta coisa estranha é feita com ela no meio dos jovens. Não vou nem falar de reduzir o tempo, eu bem queria que fosse apenas isso. Deus nos deixou um modelo de pregação (ver Atos), nos deixou um conteúdo de evangelização e exortação (Ler Jesus e Paulo) e nos disse como Ele chama pessoas a fé (Rm 10.13-17). Por que o restante da igreja tenta seguir essas verdades e o ministério de jovens parece ter descoberto uma forma mais legal de fazer?

A pregação estranha é a propagação e perpetuação do mundo estranho paralelo. A realidade bíblica da pregação expositiva (por passagem ou temas) é substituída por coisas estranhas do tipo motivacional, humorística, entretenimento, graça barata, loucuras, e secularismo. Como disse Hernandes Dias Lopes, quando a teologia é ruim (estranha), quanto mais se prega pior fica. O monstro da realidade paralela se alimenta de pregações estranhas às Escrituras.

Um comportamento estranho

Tudo isso que acabei de citar gera um relacionamento estranho. Nesse mundo paralelo a lei de Deus se faz também estranha. Jovens homens estão cada vez mais ameninados e jovens mulheres cada vez mais sensualizadas. É comum ver um palavreado estranho (entenda palavrões), vestes estranhas e brincadeiras estranhas. E o que é pior, esses jovens pensam que podem transitar o tempo todo entre as duas realidades sem nenhum desgaste ou prejuízo. Nesse caso esses ministérios de jovens são piores do que o misterioso centro de pesquisas de Hawkins.

Aqui fica a lição que até a série pode nos ensinar. O contado entre essas duas realidade e o trânsito entre elas é perigo e pode se tornar devastador. Ao passar dos episódios encontramos um professor de ciências afirmando que é necessário uma grande quantidade de energia para abrir portais entre as duas dimensões. E é triste ver tantos líderes e jovens gastando inutilmente uma grande quantidade de energia justamente para viverem num mundo paralelo cheio de coisas estranhas por conta de uma visão estranha de Deus (Os 4.6)

Como fechamos esse portal?

A resposta é: não dividamos a realidade da igreja em duas. Só existe uma realidade e uma das piores coisas que podem acontecer numa igreja é ver esse mundo paralelo jovem se tornar tão forte ao ponto de engolir toda a verdadeira dimensão eclesiástica. Jovens não precisam de um mundo paralelo, ninguém precisa. Aqui estão alguns pontos para lutarmos contra essa dupla dimensão:

- Elime o foco no entretenimento
- Centralize o culto em Deus, não nos visitantes
- Envolva os jovens com os mais velhos da igreja (incentive esses momentos)
- Utilize o mesmo padrão de liturgia (bíblico) em todos os cultos
- Pregue com a mesma seriedade em todos os cultos
- Não vista o ambiente jovem com a roupagem do mundo
- Cante músicas com letras bíblicas em todos os cultos
- Não se importe tanto com a quantidade de pessoas

Voltemos ao ambiente bíblico de culto, ao louvor bíblico, a pregação bíblia e ao comportamento bíblico. Voltemos a realidade que tem sua expressão máxima na verdade encarnada (Cristo) e escrita (Bíblia). Deixemos as “stranger things” apenas no Netflix.

27 de jul de 2016

Calvinismo e Conservadorismo - Entrevista com Vinícius Pimentel



É com alegria que trazemos mais uma entrevista para nossos leitores. Dessa vez conversamos com Vinicius Pimentel, que foi entrevistado por Thomas Magnum - um dos editores do nosso blog. Vinicius já palestrou no Fórum Nordestino de Cosmovisão e tem desenvolvido pesquisas na área de filosofia do direito. Vinicius é casado com Laura. Presbítero da Igreja Presbiteriana da Aliança em Recife/PE. Bacharel e Mestrando em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco. Comentarista do Site Política Reformada. Dessa vez nosso assunto é sobre Calvinismo e Conservadorismo. Devido ao aumento de posições conservadoras e liberais - num viés político - achamos por bem, publicarmos uma entrevista sobre o assunto. Desejamos a todos uma boa leitura.

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Temos visto um crescente interesse no país por parte de jovens cristãos que tem sido atraídos por leituras mais conservadoras. Depois da chegada de literatura de viés político reformado no Brasil, há uma demanda por essas leituras. Você tem dado palestras sobre a filosofia política de Herman Dooyeweerd, como esse filósofo pode ajudar numa construção de uma filosofia política saudável para a formação de um pensamento político cristão no Brasil?

Os cristãos têm, já há alguns séculos, se debruçado sobre a questão de como o cristianismo se relaciona com a cultura em geral e, particularmente, com o crescimento do secularismo e a perda de influência da cristandade sobre a vida pública. Herman Dooyeweerd foi um filósofo cristão que encarou o desafio de interagir com a cultura, sem, contudo, ceder às pressões do secularismo. A busca desse delicado equilíbrio entre diálogo e antítese é, na minha opinião, a principal contribuição de Dooyeweerd (e, mais amplamente, do chamado neocalvinismo) para outros cristãos que se veem desafiados a uma interação construtiva com a cultura e a vida pública.

Dooyeweerd também enfatizava, seguindo o espírito do neocalvinismo, o senhorio absoluto de Cristo sobre toda a vida e, por conseguinte, a autoridade relativa dos poderes temporais (a chamada “soberania das esferas”). No âmbito da política, essa verdade nos leva a enxergar que o impulso idólatra do coração humano muitas vezes o leva a pôr a sua confiança última no governo civil, tratando-o como um deus a quem ele apresenta suas súplicas por socorro e, em contrapartida, oferece sua devoção. Num sentido mais positivo, essa visão da soberania das esferas estimula os cristãos reformados a se organizarem em associações livres que busquem enriquecer a vida cultural e “reconquistar” espaços que foram indevidamente ocupados pelo Estado.

O Conservadorismo tem crescido no Brasil no que se refere a escritos de filósofos que tem tratado sobre o tema, e transitado entre Conservadorismo e Liberalismo Econômico. Autores como Russell Kirk, T.S. Eliot, Edmund Burke, Roger Scruton e Theodore Dalrymple, tem sido alguns dos nomes publicados no Brasil, principalmente por editoras de viés conservador. Existe possibilidade de diálogo entre Conservadorismo e Calvinismo?

Alguns irmãos, até mais versados no neocalvinismo do que eu, são um tanto relutantes em estabelecer um canal mais aberto de diálogo com o conservadorismo. Eles pretendem manter uma equidistância entre direita e esquerda e, por julgarem ser o conservadorismo “de direita”, acreditam que uma visão política genuinamente cristã não possa ser confundida com uma postura conservadora.

Pessoalmente, penso que há um caminho muito fértil de diálogo com esses pensadores mencionados. Embora não possa haver uma absorção acrítica da linguagem e das pautas conservadoras, talvez eles tenham o mérito de lembrar aos cristãos algo de que nos esquecemos: que o cristianismo teve um papel muito importante na formação da cultura ocidental.

Nem todos expoentes do Conservadorismo são cristãos professos, mas, há certas similaridades no que se refere a preservação de uma tradição. A tradição de filosofia política reformada pode utilizar-se do Conservadorismo de forma a dialogar com ele, mesmo tendo outros pressupostos filosóficos?

A ênfase dos conservadores na “tradição” deve ser vista por dois aspectos. Positivamente, podemos vê-la como reminiscente da visão bíblica dos efeitos radicais da queda humana no pecado: os conservadores tendem a enfatizar as limitações humanas e a desconfiar da capacidade dos intelectuais de projetar e promover soluções para as mazelas da vida social. Thomas Sowell chamava essa perspectiva de “visão restrita” da humanidade e ela, sem dúvida, ecoa a consciência bíblica de que o homem e o mundo estão “quebrados” por causa do pecado, razão pela qual a única “solução” para os problemas do mundo é a redenção em Cristo Jesus.

Mas é justamente aí que vemos, por outro lado, as limitações do próprio conservadorismo e sua ênfase na “tradição”. O mesmo Sowell afirma (recorrendo ao economista Friedrich Hayek) que a tradição é resultado de uma seleção natural, uma “concorrência darwiniana”, dos comportamentos e conhecimentos mais funcionais em detrimento dos menos aptos a promover o desenvolvimento humano. Ora, essa noção evolucionista da tradição, ao mesmo tempo em que nega a capacidade do homem individualmente considerado, mantém a esperança de que algum tipo de força impessoal intergeracional possa promover desenvolvimento e progresso. Isso soa até como um tipo de panteísmo. A cosmovisão cristã, ao contrário, mantém que todo progresso humano se dá pela providente ação de Deus na história e, particularmente, pela bênção que Deus põe sobre as nações que abençoam a Sua igreja, como Ele prometeu a Abraão.

Como você definiria o pensamento político de Dooyeweerd?

Já mencionei a ênfase neocalvinista no senhorio absoluto de Cristo e na soberania das esferas. Isso resulta na visão de que o governo civil deve ser limitado à sua própria esfera, que é a realização da justiça (“dar a cada um o que é devido”). Porém, é preciso observar que Dooyeweerd, assim como Kuyper, consideravam que essa função jurídica do Estado incluiria também a tarefa de mediar conflitos entre as demais esferas de soberania. Eles ainda mantinham uma defesa do monopólio estatal da jurisdição.

Porém, eu arriscaria dizer que ambos ficaram aquém do potencial de sua teoria neste ponto. A soberania das esferas nos possibilita enxergar que cada associação humana também tem a sua “justiça interna”: o Estado aplica o “poder da espada”, a igreja tem o “poder das chaves” e os pais detêm a vara da correção. Se isso é verdade, então não pode existir uma “esfera das esferas”, como Kuyper afirmava ser o Estado; ao contrário, todas as esferas compartilham o dever de zelar pelo respeito mútuo a essas “fronteiras”. Quando uma esfera tenta usurpar a função de outra, não é tarefa apenas do Estado conter esse avanço, mas de todas as demais. Na verdade, como o próprio Kuyper reconheceu, com muita frequência é o próprio Estado que se coloca em posição tirânica e tenta engolir as outras esferas de vida. Uma visão política reformada precisa reconhecer esse “pluralismo jurídico” e enfatizar o dever cristão de preencher os espaços da vida social não apenas como indivíduos, mas também mediante igrejas particulares, famílias, empresas, instituições de ensino e outras associações livres que realizem tarefas que hoje são realizadas de modo indevido (e ineficiente) pelo Estado.

Quais suas referências cristãs para um pensamento político reformado?

Os autores cristãos que mais tenho lido são aqueles que pertencem à tradição reformada holandesa. Além de Kuyper e Dooyeweerd, mencionaria Groen van Prinsterer e Klaas Schilder, além de João Althusius, que escreveu a famosa obra Política durante a resistência holandesa ao absolutismo espanhol, e do próprio João Calvino.

Mais recentemente, tenho me dedicado à leitura de obras da tradição reformada anglo-saxã, especialmente dos puritanos. Uma referência fundamental é o livro Lex, Rex, de Samuel Rutheford.

Você enquadra o Conservadorismo como ideologia?

Para responder essa pergunta, é preciso definir “ideologia”. Algumas definições são abrangentes ao ponto de incluir todo pensamento político sistematizado como ideologia. Geralmente, eu uso o termo no sentido de um comprometimento radical, religioso e idólatra com certos projetos políticos que redimiriam a humanidade de certas mazelas e a conduziriam a um estado idealizado de vida; ideologia, portanto, é uma versão “descristianizada” do drama bíblico da criação, queda e redenção em Cristo Jesus.

Nesse sentido, é difícil identificar o conservadorismo como ideologia. Primeiro, porque não há um “projeto conservador” facilmente identificável; pautas políticas muito diferentes entre si têm sido defendidas por conservadores de diferentes lugares e épocas. Segundo, os conservadores costumam ser bastante enfáticos na sua rejeição a qualquer proposta de “redenção” pela política.

Mas alguns elementos tornam essa discussão mais complexa. Quando instados a sistematizar sua visão política, os conservadores por vezes revelam certas esperanças políticas que denunciam um viés ideológico. Já mencionei o exemplo de Sowell, que deposita sua confiança na “competição darwiniana” que, mediante o conhecimento acumulado entre as gerações, por tentativa e erro, levaria ao desenvolvimento humano. Além disso, o tipo de “conservadorismo” que vem se popularizando no Brasil tem características ainda mais evidentes de uma ideologia: o culto a personalidades, o revisionismo histórico e uma visão idealizada do passado me parecem elementos claramente idolátricos na visão dos conservadores tupiniquins.

A teologia reformada defende a depravação total da humanidade. Essa postura teológica tem importantes inferências na formação de um pensamento político. O fato de o pecado desordenar a estrutura humana e seus relacionamentos concorrem para uma desordem social e política também. Quando ideologias retiram a gravidade ou aniquilam o pecado de sua construção filosófica o que isso pode causar em um sistema de pensamento que propõe o bem público?

De fato, uma perspectiva política que se pretenda genuinamente bíblica deve levar em consideração a significância radical da queda humana no pecado, a depravação total. Quando essa doutrina bíblica é esquecida na reflexão política, tornamo-nos excessivamente propensos às utopias e às soluções mirabolantes dos intelectuais. Ao mesmo tempo, passamos a desconfiar que o padrão bíblico de justiça seja rudimentar e retrógrado e, no fim das contas, negamos a realidade que está diante dos nossos olhos para que o mundo se amolde às nossas teorias.

Essas distorções ficam claras quando pensamos no problema da criminalidade. Se excluirmos de nossa análise a significância radical da queda, teremos de encontrar a fonte dos delitos fora do coração humano e recorreremos a abstrações: a sociedade, a pobreza, a opressão serão justificativas para a maldade. O problema dessas abstrações não é apenas que elas negam a realidade, mas que elas quase sempre resultam em injustiças bem reais.

Recentemente, a notícia de um estupro coletivo gerou um repúdio generalizado à “cultura do estupro”, expressão que pretende reunir uma gama absurda de comportamentos sociais, desde uma cantada na rua até a efetiva agressão física a mulheres. Vi gente chegar ao ponto de dizer que a ausência de mulheres no primeiro escalão do governo federal seria um exemplo dessa cultura do estupro. Deixando de lado as peculiaridades daquele caso específico, o problema desse tipo de discurso é que ele ofusca o fato de que há uma vítima real de um crime real, praticado por indivíduos reais, e acaba por tirar o foco da tarefa imediata de perseguir e punir os culpados. Quando, porém, analisamos o problema levando em conta a malignidade do pecado e seus efeitos, concluímos ser uma exigência da justiça que um atentado à intimidade sexual seja equiparado a um crime contra a vida e, por conseguinte, punido com a mais grave das penas. Não é à toa que a lei civil de Israel prescrevia a morte para o estuprador. E não surpreende que a “rudimentar” proporcionalidade da lei de talião seja mais justa, equilibrada e harmônica do que todos os manifestos de intelectuais e artistas contra a abstrata “cultura do estupro”.